29.7.10
Memórias Amargas
Indico abaixo o endereço de uma peça formidável da saga dos Portugueses, no final da sua Epopeia Ultramarina, iniciada com a conquista de Ceuta, em 1415, no longínquo século XV.
Pelo endereço indicado, podem ver um episódio dramático da Guerra de África dos Portugueses, no Teatro de Operações ( TO ) da Guiné.
Considero este pequeno filme um documento notável, pelo realismo, pela seriedade, pelo drama, pelo esforço ali vivido, ali despendido, infelizmente, em vão, por inépcia política de uns, que prolongaram a Guerra para lá do admissível, sem iniciativa política apropriada, e pela inconsciência de outros, que rapidamente alijaram encargos, sem cuidar de responsabilidades mais vastas para com Povos que confiavam na Administração Portuguesa, que se bateram integrados na Nossas Tropas, contra a Guerrilha independentista, alguns deles com bravura e eficácia combativa surpreendentes.
Pelo menos em relação a estes, Portugal deveria ter dado cobertura plena, diplomática, incluída, oferecendo-lhes a nacionalidade, se assim o desejassem ou obtendo garantias de não retaliação, de ausência de vinganças ou de discriminações, da parte das Novas Autoridades, saídas da Independência.
Como se sabe, nada disto foi feito, mas aqui a História já começou a preencher o absurdo vazio, com julgamentos mais serenos, separando o trigo do joio.
Hoje, grande parte da Nação Portuguesa, especialmente a mais moça, ignora, quando não despreza, o sacrifício das gerações passadas.
O vespeiro da Guiné em que Portugal se manteve durante onze penosos anos foram de facto uma prova do anacronismo político que dominava o País.
Tudo aconselharia a uma atitude diferente relativamente à situação dos outros territórios, desde logo pela irrelevância económica da Guiné. O apego aqui era absolutamente de ordem ideológica, desenquadrada do tempo que se vivia, que exigia visão muito mais pragmática. Mas talvez fosse impossível esperá-la de um político como Salazar firmado na mentalidade de Cruzado na sua luta inquebrantável contra o Comunismo Internacional.
As oportunidades foram-se perdendo e, sobretudo na Guiné, o esforço tornar-se-ia absolutamente inglório. Nem a saída se processou com honra, abandonando Portugal centenas de militares indígenas, que se bateram denodadamente ao seu lado, contra a guerrilha do PAIGC, ao longo dos onze anos do conflito.
Estes e os mais dos infelizes dos guineenses das várias etnias, lá ficaram, então, entregues à sua propagandeada "República Popular", ao seu atraso, à sua miséria, à prepotência de uns quantos enriquecidos no narco-tráfico, numa desgraça sem nome, sem horizonte de esperança...
Porque uma coisa é andar a correr pela mata africana, manejando armas, espalhando metralha, montando emboscadas, colocando minas e, depois, fugir rapidamente, até para abrigo estrangeiro, dada a particular exiguidade do território, na Guiné; outra, muito diversa, é ter de administrar um território de parcos recursos, habitado por múltiplas etnias, de variados credos e obediências, em estado de quase absoluta carência, marcado por crendices, sem sentido de pertença a entidade superior à da sua etnia, com analfabetismo generalizado e, de tudo isso, erguer uma Nação, organizar um Estado, com as suas funções típicas de soberania, na Defesa, na Educação, na Saúde, na Economia, etc., etc.
E aqui o falhanço foi imenso, tanto que, 36 anos depois, o retrocesso é evidente, não havendo já praticamente Estado, mas um arremedo de exercício de autoridade, por parte de grupos armados, que, rotativamente, ocupam o Poder, matando os líderes rivais, também em regime de rotatividade...
Ao ver este pequeno filme, quase me custou a engolir, tal o nó sentido na garganta...
Nota-se, no entanto, que a tropa portuguesa aqui presente teve bom comportamento militar, reagindo ao ataque com determinação, com serenidade, repelindo o inimigo, ao mesmo tempo que tratava dos seus mortos e feridos.
Vê-se também que os militares portugueses aqui envolvidos já tinham experiência deste tipo de confrontos.
Não há ali lugar a histerias, nem a pavores paralisantes. Há consciência do perigo, mas determinação em o vencer, respondendo ao fogo inimigo, pondo-o em fuga.
Pouco depois, o Comandante-Chefe - Gen. Spínola - visita o local da emboscada, arriscando também a sua figura, conforta os homens e dá-lhes alento para continuar. Esta atitude do Gen. Spínola, segundo dizem todos quantos com ele conviveram, em ambiente de Guerra, era frequente, pelo seu timbre de militar, garboso, no porte, mas também nas acções.
Daí o respeito que lhe tinham todos, ou seja, reconheciam que ele agia como um verdadeiro Comandante, um Líder, que não baseia a sua autoridade apenas na sua superior posição hierárquica, mas está presente, nos bons e nos maus momentos, dando exemplos verdadeiros de coragem, arrostando perigos, ajudando a vencer obstáculos.
E aqui reside toda a diferença entre ter ou não ter Carisma de Líder. Spínola tinha esse raro Carisma. Por isso, lhe deram o Comando da Situação, em 25 de Abril de 1974, apesar de não ter preparado o Golpe. Por isso, foi o Presidente da Junta de Salvação Nacional, saída da Revolução.
Infelizmente, a sua preparação política para o exercício do cargo de PR não era semelhante à sua valia militar, como depois se veio a comprovar. Porém, como militar, não devemos poupar-lhe elogios.
Nesta matéria, como de resto em tudo o mais, na vida :
A cada um a sua culpa.
AV_Lisboa_29-07-2010
Ver :
ESTE DOCUMENTO HISTÓRICO FEITO POR UMA EQUIPA DE TELEVISÃO FRANCESA, EM PLENOS ANOS SETENTA DO SÉCULO PASSADO.
http://www.ina.fr/playlist/sport/ma-premiere-selection.248492.fr.html
Guerra Na Guiné Poruguesa - anos 60/70) ...
Comments:
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Caro António Viriato
Mais uma vez apreciei este seu artigo com o qual, de uma forma genérica, concordo.
Quanto ao general Spínola, tenho as minhas reservas. Servi na Guiné dois anos sob o seu comando. Reconheço-lhe grandes qualidades militares, das quais saliento a coragem, determinação, carisma e empenhamento.
Mas revelou-se demasiadamente fácil de enganar. Bastava que lhe dissesem aquilo que queria ouvir. Na Guiné, a par de um trabalho notável, cometeu erros e imprudências graves, que só uma ambição cega e desmedida conseguem explicar.
Não deixa de ser sintomático que, depois dos seus desaires políticos, tenha escrito um livro em que, sem reconhecer as suas culpas, se queixe de que toda a gente o enganou...
Mais uma vez apreciei este seu artigo com o qual, de uma forma genérica, concordo.
Quanto ao general Spínola, tenho as minhas reservas. Servi na Guiné dois anos sob o seu comando. Reconheço-lhe grandes qualidades militares, das quais saliento a coragem, determinação, carisma e empenhamento.
Mas revelou-se demasiadamente fácil de enganar. Bastava que lhe dissesem aquilo que queria ouvir. Na Guiné, a par de um trabalho notável, cometeu erros e imprudências graves, que só uma ambição cega e desmedida conseguem explicar.
Não deixa de ser sintomático que, depois dos seus desaires políticos, tenha escrito um livro em que, sem reconhecer as suas culpas, se queixe de que toda a gente o enganou...
Caro Amigo Fernando Vouga,
Agradeço a sua nota de perito militar, que só por isso cumpre ouvir, sem mais.
Desconhecia essa faceta de Spínola, como homem dado a cultivar lisonjas, coisa sempre negative porque por aí se insinua muito bicho carunchoso que vai minando o ambiente, que se quer são, em redor de alguém com clara vocação de Lider.
Confesso que tenho em casa uma biografia sua ainda por ler e, só por isso, não me alonguei a traçar o perfil daquele famoso militar. Julgo, todavia, que devemos encarar, com reserva, certas críticas veiculadas por sectores pró-comunistas, sempre muito lestos a desacreditar figuras que lhes fazem ou fizeram frente, com alguma eficácia.
Muita coisa que ele dizia naquele seu livro de português amargurado – País sem Rumo – estava absolutamente certa, na época. Por isso o devemos lembrar como distinto militar e denodado patriota, que procurou bem servir Portugal, em tempos conturbados, como aqueles em que viveu o seu final de carreira e em que, por contraste, muitos dos seus actuais críticos se encolheram ou, poir ainda, se bandearam com jurados servidores de outras pátrias, de outros amos.
Um abraço,
AV_04-08-2010
Agradeço a sua nota de perito militar, que só por isso cumpre ouvir, sem mais.
Desconhecia essa faceta de Spínola, como homem dado a cultivar lisonjas, coisa sempre negative porque por aí se insinua muito bicho carunchoso que vai minando o ambiente, que se quer são, em redor de alguém com clara vocação de Lider.
Confesso que tenho em casa uma biografia sua ainda por ler e, só por isso, não me alonguei a traçar o perfil daquele famoso militar. Julgo, todavia, que devemos encarar, com reserva, certas críticas veiculadas por sectores pró-comunistas, sempre muito lestos a desacreditar figuras que lhes fazem ou fizeram frente, com alguma eficácia.
Muita coisa que ele dizia naquele seu livro de português amargurado – País sem Rumo – estava absolutamente certa, na época. Por isso o devemos lembrar como distinto militar e denodado patriota, que procurou bem servir Portugal, em tempos conturbados, como aqueles em que viveu o seu final de carreira e em que, por contraste, muitos dos seus actuais críticos se encolheram ou, poir ainda, se bandearam com jurados servidores de outras pátrias, de outros amos.
Um abraço,
AV_04-08-2010
Acabo de ler o seu post que diz verdades amargas de um povo que depois de 25 de Abrtil não soube assumir as suas responsabilidades na defesa daqueles que combateram à sombra da Bandeira Portuguesa.
E que foram miseravelmente abandonados, pagando com a própria vida o terem acreditado pertencerem à Pátria Portuguesa por convicção.
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E que foram miseravelmente abandonados, pagando com a própria vida o terem acreditado pertencerem à Pátria Portuguesa por convicção.
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